Continua.

Você, que me continua.

[Que me continua – Arnaldo Antunes/ Edgard Scandurra]

Quando pisco os olhos e te observo com mais atenção para não perder teu movimento mais bonito. Quando estamos tão perto um do outro e sinto minha a tua respiração enquanto nossos corações ensaiam um samba. Quando teus cílios compridos tocam meu rosto. Quando você me abraça. Quando eu te abraço. Quando a gente se embola e não tem mais como desgrudar. Quando te belisco de leve pra você virar para o lado de lá. Quando te chamo pra sentar ao meu lado e não comer em pé. Quando você ensaboa todo o rosto e fica com uma cara de menino [mais] sapeca, me fazendo rir. Quando você repete seus mantras e me deixa muda. Quando você desanda a falar de coisas que eu não vou nunca concordar. Quando imita minhas falas. Quando me irrita de propósito. Quando me aperta. Quando eu te aperto. Quando estamos afastados e sinto esse aperto. Quando sorri pra mim derrubando em meu colo todas as coisas mais lindas e me deixa procurando pendurá-las em tudo o que resolvamos construir. Quando eu tenho a certeza de que é você, de que é com você, de que é por você. Quando tenho uma crise de risos por conta de algo que você disse. Quando você tem uma crise de risos por conta de qualquer coisa. Quando despejamos sorrisos por onde passamos. Quando dividimos uma cerveja, um beijo, uma poesia, uma cama, uma hora, um mês. Quando planejamos dividir uma vida inteira. Quando eu falo pra caralho. Quando eu tento escrever sobre o que sinto e a lua vai se escondendo só para o sol chegar e me mostrar que o que eu guardava de você em mim na noite passada era menor do que o que veio nascendo hoje. E amanhã não vai ser diferente. Quando falo sobre nós dois e tudo vira música. Quando você me telefona e me deixa tímida logo de cara. Quando você me acende. Quando ninguém mais consegue apagar a gente. Quando brilhamos, juntos. Quando eu me assusto com todas essas coisas muito boas saltando de você para mim. De mim, para você. Quando eu não duvido que a vida não poderia ter sido vivida de outra maneira, só para nos trazer até aqui. Quando você é ridículo. Quando eu sou teimosa. Quando passamos horas ao telefone sem nem notar. Quando eu sorrio mais largo e mais bonito e todo mundo percebe seu desenho em meus lábios. Quando concluímos que somos intensos demais. Quando entendemos que a possibilidade de viver um grande amor vai além do poema. Quando eu acho perigoso tirarmos um cochilo no sofá. Quando minhas palavras de amordemais não souberam sair e resultaram em algumas lágrimas no escuro. Quando você conseguiu achar o caminho exato em meio ao labirinto que cercava meu coração. Quando olho seus olhos, enxergo sua alma, e meus medos vão todos embora. Quando te espio dormir e fotografo teu rosto em mim, trazendo a certeza de que acordar ao seu lado, ainda que todos os dias, seria pouco tempo. Quando eu me emociono ao ouvir sua voz guardada no meu computador no meio de uma terça-feira ociosa qualquer. Quando a viagem não sai como o planejado. Quando passamos a acreditar em coisas que imaginávamos impossíveis antes de nos termos. Quando meu corpo vibra o que não sei dizer quando estou ao seu lado. Quando sinto toda a minha ternura caber no modo como te enxergo. Quando perco alguns minutos reconstruindo nossos momentos. Quando você reclama de todas as matérias do jornal. Quando diz que me ama como se estivesse pedindo desculpas por ser tão insuportável. Quando começa a entender que só é o melhor porque eu te fiz assim, e tão somente por isso. Quando vamos ao supermercado e você enlouquece comprando chocolates. Quando sempre demora mais do que eu pra se arrumar. Quando fala bonito de alguém que ama. Quando prepara a sua festa para receber a minha. Quando você me inaugura. Quando a gente amanhece em meio à madrugada. Quando eu vejo que aprendemos que se faltar alguma coisa, podemos inventá-la. Quando eu me preocupo com você. Quando você cuida de mim. Quando eu acho a estrada muito longa quando vou ao teu encontro e muito curta quando me despeço de você. Quando sua voz baixinha me faz adormecer. Quando sua gargalhada me faz feliz. Quando você derrama um pouco de açúcar nos segundos e faz meu dia doce. Quando você me olha demais e eu te peço pra parar. Quando a felicidade atua em nossos gestos. Quando trocamos gemidos. Quando te entrego o que sempre segurei só em mim. Quando as coisas miúdas viram lembranças bonitas. Quando eu empurro com o nariz tudo o que me faz mal e trago o bom para ser teu. Quando tudo em você arrasta o meu olhar, feito ímã. Quando aquela minha blusa fica impregnada pelo seu cheiro. Quando você diz que sou toda errada. Quando descobrimos não haver nada tão certo quanto você e eu. Quando usar o nós passou a ser natural. Quando tudo deu um nó. Quando você me continua. E a gente descobre não ter fim.

A gente não tem fim, quando eu amo você. E te continuo.

 
GABRIELA FOUR