01 fevereiro 2016

Nós.



Duas taças de vinho e a pouca luz iluminando tuas curvas: meus olhos iam lentamente desenhando teu corpo. O jeito que só você tem de me olhar, uma retina delicadamente eufórica, tuas cores escuras clareando meus tons que mudavam de acordo com as chamas penduradas nos teus cílios compridos. Camaleoa, minha pele suava vermelha de vontade de enlaçar teus braços ao redor de toda essa minha estrutura frágil e desejosa de amor. 

Um movimento de encaixe e teus dedos fazem luvas dos meus, enquanto a possibilidade de olhá-lo de perto me entrega a sensação de que qualquer lugar no mundo não faz sentido algum se não tiver o teu hálito quente envolvendo minha orelha enquanto sussurra palavras cheias de asas e faíscas que, ao penetrarem meu lado de dentro, rasgam todas as poesias mansas e rabiscam em todo o meu interior letras que combinam com o torpor de um instante onde ser mulher é uma das coisas mais intensas que o universo me permitiu saborear. 

Você me encosta contra a parede e ensaiamos uma pintura despudorada de uma tela assimétrica, sem contornos, de cores loucas querendo saltar para contar sua versão dos sentimentos que permaneceram ali, borrados, enquanto nossos passos dançavam um ritmo que se inventava naquele instante onde tudo era muito dominado pelas linhas de paixão que nos costuravam um no outro. Amar nunca foi tão fácil.

Eu bebia você em goles ansiosos enquanto nossas línguas entregavam o doce de se tocarem tão afinadas nas partituras de nós dois. Você me respirava como se a primavera houvesse derramado suas flores em meus poros. Teus lábios na minha nuca e meus pelos acordando muito curiosos, procurando enxergar a novidade de um despertar tão urgente. Duas taças de vinho, já vazias, agora procuravam meios de rechear-se com tudo o que transbordava naquele espaço. Nós dois já muito perdidos em nós dois, não entendíamos mais de finais e começos, conectamos nossas metades e tudo passou a ser sempre infinito.

Dentro de mim, você fazia músicas que melodiavam coisas sem nome. Coisas que pulsavam no meu peito com a mesma força com a qual minhas unhas arranhavam tuas costas – tatuando versos que ardiam, doidos e doídos. Dentro de mim, você levava tudo o que não falava de vocêeeu, você deixava toda aquela paz. Todo aquele azul. Dentro de mim, você se deixava – e o seu peso em cima do meu corpo quente fazia brotar asas em nós dois, que nos elevávamos entre sorrisos e euteamos trocados em meio a dois corações que não sabiam mais parar de conversar, tão empolgados e altos depois do amor que souberam fazer.

Minutos depois, o sol clareou toda aquela noite escura e de pouca luz. Seus raios de festa fotografavam nossa pose final, entre pernas e braços confusos, onde já não se sabia mais quem era quem. Um nó, depois de todos aqueles laços. Porque éramos um. 

Somos, vocêeeu, um: nós.